Dois meses depois…
O iPhone chegou ao Mobilidades há quase dois meses. O princípio é sempre complicado, conhecer o sistema operativo, encontrar software com as mesmas funcionalidades dos seus “primos” Windows Mobile e, enfim, habituar-me ao modo de funcionamento peculiar do iPhone.
Passado este período de adaptação, o iPhone deixou de surpreender. As aplicações existentes, apesar de variadas (já veremos isso mais adiante), não permitem funcionalidades adicionais ao sistema operativo, só dentro da aplicação em si. Ora, para (ex) utilizadores de Windows Mobile, a impossibilidade de trocar informação entre aplicações ou aceder aos ficheiros do dispositivo é algo muito estranho – mas não insuportável. Aliás, como veremos mais adiante, é compreensível a falta de um Explorador de Ficheiros para o iPhone.
Todavia, vamos aos “turn-downs” que encontrei ao longo destas semanas:
Autonomia: era um dos pontos fortes do iPhone. Desilude – no mínimo – o dia e meio de bateria em 2G. É óbvio que tudo depende da forma como utilizamos o aparelho, se reduzimos o brilho do ecrã invés de deixar automático, desligar o EDGE, se ouvimos muita música, entre outros. Por outro lado, com o mesmo perfil de utilização face ao Samsung i780, o iPhone fica atrás.
Estabilidade: É certo que o iPhone nunca “crashou” ao ponto de ter de o reiniciar. Todavia, são frequentes as faltas de memória e a dificuldade em iniciar aplicações nessas condições. Em prática, o iPhone exige os mesmos soft-resets ocasionais tal como um PDA Windows Mobile.
Sincronização: O iPhone é um produto Apple e sincroniza com as aplicações-padrão do MacOS, como o iCal (calendário) e os Contactos. Por outro lado, não se compreende a falta de sincronização das Notas se existe uma aplicação paralela no computador. Mesmo assim, a sincronização com o Outlook surpreendeu, com todos os itens a sincronizar sem problemas – com excepção das Notas e Tarefas (esta última aplicação não existe no iPhone) e das categorias.
PIM: Faltaram as Tarefas e as Categorias, mas para um aparelho que não foi desenvolvido como PDA, o iPhone desempenha a tarefa de forma competente. Se é verdade que o Calendário não possui as configurações avançadas para a repetição de eventos (por exemplo), pelo menos respeita as definições do Outlook.
Ficheiros: Este é o ponto que não se compreende. Apesar do iPhone suportar nativamente a visualização de ficheiros do Office, é impossível sincronizar um simples documento ou outro que não seja suportado pelo iTunes. A solução passa pelo Email ou pela utilização de um programa de sincronização via wifi, onde o iPhone fica definido como servidor FTP ou ssh. Obviamente, os ficheiros ficam “trancados” dentro do tal programa – o que implica que a aplicação “Photos” não consiga abrir as imagens que eventualmente sejam recebidas via wifi ou o “iPod” tocar as músicas e filmes.
Volto a repetir: ficheiros só via iTunes (os suportados) e wifi para os restantes. O Bluetooth do iPhone não tem protocolo de transmissão de ficheiros, nem sequer de vcards. Receber uma imagem de outro equipamento é impossível, salvo sejam ligados via wifi – o que é bem mais complicado do que um simples “Beam” por bluetooth.
Ficheiros (2): Mesmo os compatíveis com o iTunes, só podem ser adicionados, alterados, removidos, modificados de alguma forma no próprio iTunes. Ou seja, caso seja sincronizado um filme, podcast, música ou imagem que já não queremos no aparelho, a sua eliminação só é possível no computador, não no iPhone. A limitação é tão chata ao ponto de ser impossível rodar uma imagem. Não me refiro ao efeito de passar de Retrato para Paisagem, mas sim de rodar literalmente uma imagem que seja tirada em Retrato numa máquina fotográfica.
Aplicações: Existem no momento cerca de 10 mil programas para o iPhone, um grande salto em pouco mais de 12 meses de existência da AppStore. Todavia, convém referir que mais de metade das aplicações são “clones” uma das outras (têm as mesmas funcionalidades), muitas não têm qualidade absolutamente nenhuma, milhares de jogos (e joguitos pobres) e “coisinhas” engraçadas. Curiosamente, no fundo, aplicações de qualidade só mesmo as de Software Houses conhecidas – com programas Windows Mobile – como é o caso do eWallet, SplashData, entre outros. Como não existe a possibilidade de “trial”, caso a aplicação seja paga, o utilizador arrisca-se a pagar por uma porcariazinha qualquer – sem refund. Aconteceu-me por duas vezes, não acontece mais.
Telefone: Nos vídeos de promoção até parece que a função telemóvel do iPhone é revolucionária. Não é. O Visual Voice Mail é bom – mas só funciona em algumas redes, não é possível adicionar números antes do contacto (o célebre “122″ da TMN antes do número – a menos que se saiba o número de cor) e – o que é verdadeiramente impressionante – o keypad é só mesmo para números, apesar de alfanumérico. Ou seja, só podemos fazer uma chamada de três formas: através dos Contactos, Favoritos ou marcar o número directamente. Desaparece a possibilidade de marcar as primeiras letras do nome no keypad e aparecer o contacto correspondente ou os primeiros números do seu telefone.
Interface: O GUI não se resume aos efeitos, resume-se à usabilidade. Quem acha a interface do iPhone fantástica é porque nunca o usou por muito tempo ou só tem meia dúzia de aplicações instaladas. A partir das três ou quatro páginas cheias de icons, a sua gestão e organização tornam-se complicadas e maçadoras – especialmente se instalamos/desinstalamos algum programa. O iPhone é óptimo numa série de coisas – teclado, “lupa”, arrastamento de itens, etc… mas não no springboard.
Mais do mesmo: falta copy-paste, MMS, gravação de vídeo, multi-tarefa, câmara frontal, botão dedicado à câmara e um verdadeiro “sound switch”.
Por outro lado, nem tudo é mau: Existe o famoso JailBreak e com ele (algumas) soluções para estas dificuldades e “feitios” (não se entenda como “problemas” do iPhone, ele foi mesmo feito para ser assim).
Com o pwnd aplicado, temos acesso a algumas funcionalidades extra – nomeadamente o MMS, copy-paste (limitado), organização dos programas por categorias e gravação de vídeo – mas mesmo assim, do ponto de vista de um utilizador WM, o iPhone é sem dúvida limitado e gera injustamente a designação de “super aparelho” quando na verdade não o é.
A Microsoft tem de aprender com a Apple no que toca ao “hype” dos seus produtos, melhorar o aspecto-base do Windows Mobile (não muda desde… 2000?) e deixar de insistir no Office como uma grande vitória – afinal qualquer cliente minimamente informado sabe que o Windows é óptimo para o escritório. Aposte-se na fluidez dos gráficos, no OpenGL, interface, multimédia, interactividade (aquele “X” no canto superior direito é a brincar – estamos a falar de dispositivos handheld, não desktop), entre outros aspectos. Todavia, sem perder as funcionalidades nativas do WM que só por si deixam o iPhone a anos-luz atrás no que toca à computação móvel.
A questão que se coloca agora é mesmo: deverá um utilizador de WM mudar para o iPhone? Bem, se utiliza o PDA pelo “estatuto” ou pelas funcionalidades a nível de multimédia e jogos, sim, é uma hipótese.
Para os restantes – aqueles com dezenas de aplicações, os que sincronizam diariamente o seu PDA, os que têm centenas de notas, apontamentos no calendário, ficheiros do Office, música, filmes, alguns jogos, programas de GPS, etc… – NOT, mas é que nem vale a tentação.

Últimos Comentários